Estudos Bíblicos Teologia

Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno – 1/5.

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O pregador, para que traga uma mensagem que atinja os ouvintes, é imprescindível que conheça tanto o meio em que a igreja está inserida quanto os particulares de cada membro. “Os melhores pregadores são sempre pastores diligentes que conhecem as pessoas de sua área e congregação, e compreendem o escárnio humano em toda a sua dor e prazer..

Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno – 1/5.

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Por Rev. Felipe Camargo

1. Conhecendo os nossos ouvintes

O pregador, para que traga uma mensagem que atinja os ouvintes, é imprescindível que conheça tanto o meio em que a igreja está inserida quanto os particulares de cada membro. “Os melhores pregadores são sempre pastores diligentes que conhecem as pessoas de sua área e congregação, e compreendem o escárnio humano em toda a sua dor e prazer, glória e tragédia”.[1]

1.1. Conhecendo a cultura

Primeiramente o pregador precisa prestar atenção no meio em que a igreja está inserida. Ele não pode esquecer que a igreja pertence à uma cultura sem Deus. É necessário, como afirma Stott, que se estude os dois lados do abismo.[2]

Quanto a isso, Mohler diz que há alguns acreditam que a cultura é irrelevante para a pregação.[3] No entanto, como ele mesmo afirma, todos estão profundamente arraigados na cultura. Não somente os pregadores são influenciados pela cultura, mas as variadas características da cultura contribui na modelagem de uma determinada congregação.[4] É por esse motivo que John Stott alerta para a necessidade do pregador parar um tempo para ler ou assistir jornal, ler resenhas de livros seculares mais influentes, se possível até lê-los, assistir filmes, entre outras coisas.[5] Stott ainda afirma:

“los estudios bíblicos y teológicos no conforman por sí solos la buena predicación. Son indispensables, pero a menos que estén complementados con estudios contemporáneos pueden mantenernos en un desastroso aislamiento a un lado del abismo cultural.” [6]

Afinal, igreja não está isenta de receber influencias externas a ponto de influenciar sua maneira de pensar e agir.

O próprio contexto levanta dúvidas na cabeça do cristão. Por isso, a responsabilidade do pregador é ajudar os ouvintes a entender questões levantadas na atualidade. Ele é responsável em ensinar a verdade de maneira que desenvolva nos ouvintes uma mente cristã para conseguir discernir os grandes problemas de hoje e deste modo amadurecer em Cristo.[7]

Um claro exemplo das dificuldades que o pregador contemporâneo pode encontrar é o fato de se encontrar num mundo pós-moderno. Mohler dedica um capítulo inteiro para uma análise sobre a pós-modernidade mostrando a forma de pensar e de agir do homem que vive neste período.[8] Ele termina o capítulo mostrando o grande desafio que o pregador tem diante desta realidade.

Leandro Lima destaca que há 3 formas de reagir diante da pós-modernidade. A primeira, segundo ele, é a “aceitação simples”. Com isso ele quer dizer que é aceitar a existência da pós-modernidade como algo irreversível e entender que a única opção é se adaptar. Essa adaptação envolve tanto a mensagem como o método da apresentação.[9] Mohler afirma que há alguns que “permitem que a cultura seja dominante em seus ministérios, de modo que ela se torne tão fascinante que eles próprios transformam em representante de um ministério aculturado”.[10]

A segunda alternativa apresentada é a “negação simples”. Essa alternativa nega a existência do pós-modernismo e valoriza as tradições do passado tanto no conteúdo como na forma de apresentar a mensagem.[11] No entanto, Fergunson está correto ao afirmar que a “exposição bíblica deve falar às pessoas sentadas nos bancos das igrejas hoje, não àqueles que sentaram neles há centenas de anos”.[12] Lima também alerta sobre o grande perigo desta postura: “ao negar a realidade da época atual, faz-se necessário um esforço por manter a mensagem e o método da apresentação, mas acaba sendo inevitável o isolacionismo e a dificuldade de ser ouvido”.[13]

A terceira opção que Lima dá é a “aceitação crítica”.[14] Nesta aceitação crítica pode-se tanto ter uma avaliação da pós-modernidade para simplesmente mostrar que ela está totalmente errada, ou perceber que há pontos positivos e rejeitar apenas aquilo que influencie na mensagem.[15] Esta terceira alternativa, como também colocado por Lima, é a melhor opção para os pregadores contemporâneos. Nesse mesmo sentido, Mohler afirma que “neste tempo crítico de transição cultural e intelectual, a tarefa de pregação tem de ser entendida como uma chamada apologética.”[16]

Olhando para a pregação de Joel, a terceira opção é a que melhor se encaixa com sua posição. Portanto, é necessário que o pregador esteja atento aos perigos oferecidos pela pós-modernidade. Sem interferir no conteúdo, o pregador precisa observar o que é necessário adaptar ou se opor.

A seguir segue um texto do Rev. Nicodemus que dá uma pequena análise sobre a época em que nós vivemos:

LENDO A BÍBLIA HOJE
Alguns aspectos da pós-modernidade – nome que se dá à época em que estamos vivendo – se constituem em sérios desafios à leitura bíblica feita pelos reformados, mesmo aqueles que nunca ouviram o nome “pós-modernidade”.
Os reformados têm tradicionalmente interpretado as Escrituras partindo de alguns pressupostos oriundos da Reforma protestante. O mais importante deles é que as Escrituras são divinas, em sua origem, infalíveis e inerrantes no que ensinam, seguras e certas no seu ensino. Para eles, a Bíblia é a revelação da verdade. Em decorrência, só existe uma religião certa, a que se encontra revelada na Bíblia. Logo, no raciocínio reformado, tudo o que é necessário à vida eterna e à vida cristã aqui nesse mundo estão claramente reveladas na Escritura. E tais coisas são claramente expostas nela.
Existem alguns aspectos da pós-modernidade que desafiam esse pressuposto central da interpretação reformada das Escrituras.
1) O conceito de tolerância. Eu me refiro à idéia contemporânea de total complacência para com o pensamento de outros quanto à política, sexo, religião, raça, gênero, valores morais e atitudes pessoais. Neste conceito de tolerância, as pessoas nunca externam seu próprio ponto de vista de forma a contradizer o ponto de vista dos outros. Esse tipo de tolerância não deve ser confundida com a tolerância cristã, pois ela resulta da falta de convicções em questões filosóficas, morais e religiosas: “A tolerância é a virtude do homem sem convicções” (G. K. Chesterton). A tolerância da pós-modernidade é fortalecida pela queda na confiança na verdade, atitude típica de nossa época.
É preciso observar que existe uma tolerância exigida do cristão. Devemos tolerar as pessoas. Todavia, não temos de tolerar suas crenças, quando estas contrariam a verdade de Deus revelada nas Escrituras. Temos o dever de ouvir o que elas tem a dizer, e aprender delas naquilo em que se conformam com a verdade bíblica. Porém, tolerância ao erro, quando a verdade bíblica está em jogo, é omissão.
A tolerância tão característica da pós-modernidade pode afetar a interpretação da Bíblia levando as pessoas a interpretá-la a partir do conceito de “politicamente correto.” Evita-se qualquer leitura, interpretação ou posicionamento que venha a ser ofensivo à sociedade ou comunidade a que se ministra. Textos bíblicos que denunciam claramente determinados comportamentos morais são domesticados com uma leitura crítica que os reduz a expressões retrógradas típicas dos moralistas machistas do século I. Textos que anunciam a Cristo como o único caminho para Deus são interpretados de tal forma a não excluir a salvação em outras religiões.
2) O inclusivismo. Num certo sentido, é o resultado do multiculturalismo do mundo pós-moderno. Não há mais no mundo ocidental um país com uma cultura única e uma raça homogênea. Países ocidentais são multiculturais e têm uma mescla de diversas raças. Para que não se seja ofensivo, e para que se possa conviver harmoniosamente, é necessário ser inclusivista. Isso significa dar vez e voz a todas as culturas e raças representadas.
Na sociedade pós-moderna, o conceito se estende para incluir os grupos moralmente orientados. Significa especialmente repartir o poder com as minorias anteriormente oprimidas pelas estruturas de poder, como por exemplo, os homossexuais, pobres e minorias étnicas.
Existem coisas boas do inclusivismo multiculturalista, como por exemplo, estudos nos meios acadêmicos sobre a cultura de raças minoritárias e oprimidas no ocidente, como africanos, hispânicos e orientais. Também a criação de bolsas de estudos e empregos para membros destas minorias raciais, bem como de grupos oprimidos, como as mulheres. Ainda digno de nota é a luta contra discriminação baseada tão somente em raça, religião, postura política e gênero.
Mas existem coisas que nos preocupam no inclusivismo. A maior de todas é que o inclusivismo exclui qualquer juízo de valor em termos morais, religiosos, e de justiça. Tem que ser assim para que o relacionamento multicultural e multi-moral funcione.
O inclusivismo acaba também influenciando na interpretação bíblica. Sua mensagem é abordada do ponto de vista do programa das minorias. Por exemplo, a chamada teologia da libertação (meio defunta hoje) e as teologias feministas.
3) O relativismo. No que tange ao campo dos valores e dos conceitos morais e religiosos, é a idéia de que todos os valores morais e as crenças religiosas são igualmente válidos e que não se pode julgar entre eles. A verdade depende das lentes que alguém usa para ler a vida. O importante é que as pessoas tenham crenças, e não provar que uma delas é certa e a outra errada. Não há meio de se arbitrar sobre a verdade porque não há parâmetros absolutos. Desta forma, alguém pode crer em coisas mutuamente excludentes sem qualquer inconsistência.
Existem alguns perigos no relativismo quanto à leitura da Bíblia. Primeiro, o relativismo acaba por minar a credibilidade em qualquer forma de interpretação que se proponha como a correta. Segundo, acaba por individualizar a verdade. Cada pessoa tem sua verdade e ninguém pode alegar que a sua é superior à dos outros. Portanto, ninguém pode ter a pretensão de converter outros à sua fé.
Muitos cristãos são tentados a suavizar a sua interpretação da mensagem do Evangelho, excluindo os elementos que não são “politicamente corretos” como: pecado, culpa, condenação, ira de Deus, arrependimento, mudança de vida. Acaba sendo uma tentação de escapar pela forma mais fácil do dilema entre falar todo o conselho de Deus ou ofender as pessoas.
Esses são alguns dos perigos que a pós-modernidade traz à leitura e interpretação das Escrituras. Reconhecemos a contribuição da pós-modernidade em destacar a participação do contexto e do leitor na produção de significado, quando se lê um texto. Porém, discordamos que isso invalide a possibilidade de uma leitura das Escrituras que nos permita alcançar a mensagem de Deus para nós e de ouvir a voz de Cristo, como Ele gostaria que ouvíssemos.[17]

1.2. Conhecendo a igreja

O conhecimento só será mais aprofundado a partir do momento que o pastor conhece a seu próprio rebanho. Para que a mensagem seja eficaz, a primeira atenção do pregador deve estar direcionada à própria igreja. Para Stott, a melhor forma de conhecer o povo é fechar a boca e abrir os olhos e ouvidos. [18] De fato, como ele mesmo reconhece, é uma tarefa difícil para o pregador se dispor a ouvir mais e falar menos.

Falando sobre esta necessidade de aproximação e cuidado com o rebanho, Lewis diz: “O coração do verdadeiro pastor cuidará de se identificar com as pessoas, do mesmo modo que o Bom Pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas.”[19] Ele argumenta ainda que: “muitos de nossos ouvintes hoje anseiam por um pregador que capta, cuide e cresce, um que se relaciona com as pessoas”.[20]

Neste assunto Jay Adams traz um grande auxílio sobre como conhecer melhor a igreja pastoreada. Ele diz que para conhecer o seu público há pelo menos três formas básicas, sendo eles: através de contato informal, aconselhamento e contato formal.[21]

Por contato informal ele entende que são encontros que não fazem parte das programações da igreja. São nestas conversas que o pregador pode conhecer com mais intimidade seus membros, pois, nestes momentos eles mostram quem realmente são. Corretamente Stott afirma que também é indispensável que se tenha conversas com as diferentes gerações de uma congregação para uma compreensão melhor da igreja como um todo.[22] Portanto, esses encontros e conversas não podem ser vistas como um tempo desperdiçado.

O aconselhamento é outra forma de obter um melhor conhecimento do povo que pastoreia. Adams está certo ao afirmar que para que o crente atinja a maturidade em Cristo ele precisa da pregação pública e pregação privada.[23] Malone também lembra que: “Nosso ministério público na pregação da Palavra é a fundação de tudo o que fazemos. No entanto, nem nosso Senhor e nem seus discípulos negligenciaram o trabalho pessoal ao executar estas prioridades”.[24] Mas, o que muitos pastores podem esquecer é que ele deve utilizar o aconselhamento também para conhecer melhor o seu rebanho. Afinal, o aconselhamento ajuda o pastor conhecer áreas da vida do crente que a conversa informal não atinge. Por isso, o pastor deve estimular suas ovelhas a contar sobre sua vida particular para conhecê-las melhor.[25] Medos, pecados, fraquezas, frustrações, desejos, entre outras coisas são conhecidas profundamente apenas em aconselhamentos. Atos 20.20 mostra que esta era uma prática também de Paulo: “jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa”. Em outras palavras, a pregação precisa do aconselhamento, tanto quanto o aconselhamento precisa da pregação. [26]

Ao falar sobre contato formal Adams parte de uma análise sistemática da congregação, principalmente ao chegar a uma nova igreja. Para que isso ocorra o primeiro passo é observar o que foi aprendido naquela igreja no decorrer dos anos. Essa análise pode ser adquirida também através de conversas com pessoas mais antigas daquela igreja. É necessário, entretanto, que não seja conversado apenas com uma única pessoa, mas com pessoas de diferentes grupos da igreja. No entanto, deve-se observar que esta análise não deve ser feita apenas ao chegar em uma nova congregação, mas, como o próprio Adams sugere, deve ser feita periodicamente.[27] Essa observação constante que o pastor faz o ajudará perceber quais as áreas que a igreja precisa desenvolver melhor e quais os temas devem ser abordados no púlpito.

Ellsworth, escrevendo à um personagem fictício chamado Timóteo, diz: “Você precisa estudar a Palavra, mas também precisa estudar o povo. Este tipo de estudo só pode ser feito, se você estiver entre eles e ministrando para eles”.[28] Desse modo o pregador conseguirá fazer uma aplicação de maneira apropriada visando a mudança necessária para aquela igreja.

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2. Anunciando a mensagem

Os profetas eram mensageiros do Senhor e, portanto, devem ser considerados bons modelos para nós hoje. Uma das coisas que podemos perceber nos profetas do Antigo Testamento é o fato de sua mensagem ter sido fundamentada no Pentateuco. Eles não traziam uma mensagem totalmente nova, mas se preocupavam em mostrar como as Escrituras podiam ser aplicadas aquele povo. Com isso em mente, o principio a ser aplicado ao mensageiro contemporâneo é que toda pregação deve ser fundamentada na Palavra de Deus.

Embora possa parecer óbvio que o pregador deva pregar a Bíblia, isso não parece ser tão natural assim. Na verdade, pode haver uma grande confusão nos púlpitos a respeito disso. Muitos sermões possuem aparência de pregação bíblica, mas, na realidade são pensamentos de homens e não de Deus. O simples fato de alguém levar a Bíblia para o púlpito não quer dizer que ele esteja pregando realmente a Bíblia. A tentação que o pregador pode sofrer é usar um texto bíblico apenas para dizer o que pensa e não o que a Bíblia realmente diz.

Muitas vezes, ainda, a falha no púlpito acontece por uma preocupação em agradar aqueles que estão ouvindo. Paulo adverte que nos últimos dias as pessoas não aceitariam as verdades de Deus (2 Tm 3.1-4.5). É natural, portanto, que a pregação verdadeira não seja tão aceita pela maioria das pessoas. No entanto, quando um pregador deixa de pregar a Palavra de Deus simplesmente pela tentação de agradar a igreja, mostra que ele deixou de ser um pregador e que seu temor está em homens e não em Deus. Por isso, não está errado também afirmar que se a pregação não tem causado impacto na igreja certamente o pregador abandonou o compromisso de pregar a Bíblia. Como afirma Mohler, “se você está e paz com o mundo, você já abdicou do seu chamado”.[29]

O que se defende aqui é que a autoridade de uma pregação não vem pela forma de falar ou pelo número de pessoas que se consegue persuadir, mas pela autoridade da Palavra de Deus. Quanto à isso, Robinson explica: “Um pregador pode proclamar qualquer coisa, com voz imponente, no domingo de manhã, depois de serem cantados os hinos. Mesmo assim, quando um pregador deixa de pregar as Escrituras, perde sua autoridade.”[30]

Calvino, que era um grande expositor da Bíblia, não aceitava outra forma e pregação senão aquela que explicasse com fidelidade a vontade de Deus exposta na Bíblia:

Quando, porém, pareceu bem a Deus suscitar mais clara forma à Igreja, quis que fosse confiada à escrita, e assim selar sua Palavra, para que os sacerdotes daí buscassem o que ensinar ao povo e para que a essa regra se conformasse todo o ensino que se transmitisse. E assim, após a promulgação da lei, quando se ordena aos sacerdotes que ensinassem “pela boca do Senhor” [Ml 2.7], o sentido é que não ensinassem algo estranho ou alheio a esse gênero de ensino que Deus havia compreendido na Lei. Com efeito, lhes foi vedado acrescentá-la e diminuí-la.[31]

Para Calvino, o motivo para se pregar biblicamente é porque somente através desta pregação que Deus se utiliza para edificar seu povo.[32] Calvino, neste ponto não aceita exceções: “Deve-se, porém, ser mantido por nós o que já citamos de Paulo: que a Igreja não é edificada de outro modo senão pela pregação externa.”[33]

Por isso, a pregação expositiva se torna o melhor modelo de pregação, pois nela a preocupação do pregador é expor a Bíblia e somente isto. Por pregação expositiva deve ser entendida como aquela pregação cujo alvo principal é explicar e aplicar a mensagem de um determinado texto da maneira mais fiel possível. Mohler, sobre isso, diz:

“Eu defino pregação expositiva como aquele estilo de pregação cristã que tem como propósito central a apresentação e a aplicação do texto da Bíblia. […] Sendo a Palavra de Deus, o texto da Escritura tem o direito de estabelecer tanto o conteúdo quanto a estrutura do sermão. A exposição genuína ocorre quando o pregador define o significado e a mensagem do texto bíblico e deixa claro como a Palavra de Deus estabelece a identidade e a perspectiva da igreja como povo de Deus.” [34]

O mesmo afirma MacArthur de maneira resumida: “por expositiva quero dizer pregar de tal maneira que o significado da passagem bíblica se apresente completa e exatamente como Deus quer” (tradução minha).[35] Portanto, quem direciona a forma e o assunto do sermão é o texto e não o pregador.

No entanto, a pregação expositiva não é um simples método de pregação, mas um compromisso com a Palavra de Deus. Está correto Robinson ao afirmar que a pregação expositiva é mais uma filosofia do que um método.[36] Ligon Duncan explica melhor esse pensamento dizendo:

“Eu não me refiro à pregação expositiva como um estilo ou um método de pregação, mas ao compromisso de princípios autoconsciente com a pregação de tal modo que a própria Escritura forneça o tema principal, as verdades essenciais e aplicação principal na nossa proclamação” [37]

Assim, fazer uso de recursos homiléticos e didáticos não são errados desde que não interfira na mensagem central do texto. Na verdade, estes recursos devem ser dependentes do próprio texto.

Entretanto, o fato de um pregador tratar de alguma verdade bíblica, não significa que ele esteja sendo expositivo. É interessante notar que o grande pregador Lloyd-Jones recusava qualquer pregação que não fosse a pregação expositiva. Neste ponto ele chega a afirmar: “A verdadeira pregação é a exposição da Palavra de Deus. Não é mera exposição dos dogmas ou do ensino da Igreja.”[38] Em outro lugar ele ainda adverte que:

“É erro grave quando um homem impõe violentamente o seu sistema sobre qualquer texto em particular; porém, ao mesmo tempo, é vital que a sua interpretação a respeito de qualquer texto especifico seja confrontada e controlada por esse sistema, por esse corpo de doutrina e de verdades, que se encontram na Bíblia. A tendência de alguns homens que têm uma teologia sistemática, e à qual se apegam rigidamente, consiste em impô-la a textos particulares, assim forçando tais textos.” [39]

É nisso que se diferencia a pregação expositiva da pregação textual e temática. Na pregação textual e temática o pregador é tentado a impor a sua doutrina em determinados textos. Mas, como apresentado até agora, a preocupação do pregador é que o texto bíblico fale ao coração do crente e não um sistema doutrinário.

Para que isso ocorra, ou seja, que o pregador transmita realmente a Palavra de Deus, ele necessita de um estudo detalhado do texto bíblico. Usando as palavras de Mohler, “o pregador deve ser um servo da Palavra”.[40] Por isso, é importante que o pregador faça uma exegese cuidadosa da passagem. Olivetti demonstra a preocupação com a correta interpretação da Palavra de Deus dizendo que:

“Descuidar da interpretação da Bíblia é tender a pregar inverdades, a torcer ou truncar ou falsear as verdades da Palavra de Deus. E agir assim é ser infiel a Deus e à Sua Palavra, e é ser um traidor dos seus ouvintes e dos seus leitores.” [41]

Este talvez seja um grande motivo do porque a pregação expositiva não tenha tido tanto espaço nos púlpitos. A pregação expositiva exige, inevitavelmente, um estudo mais demorado e árduo que as demais formas de pregação.

De certa forma, toda essa preocupação com a pregação expositiva parte de um pressuposto teológico. Como bem explica MacArthur, a pregação expositiva deve ser uma resposta à certeza da inspiração e inerrância da Bíblia.[42] Ele afirma que a “infalibilidad demanda la exposición como el único método de predicación que preserva la pureza de la Escritura y alcanza el propósito para el cual Dios nos dio su Palabra”.[43] O mesmo afirma Mohler dizendo que se “cremos verdadeiramente que a Bíblia é a Palavra escrita de Deus – a revelação de Deus perfeita e divinamente inspirada, a pregação expositiva é a única opção válida para nós”.[44]

Nesse sentido, Shedd também explica que “o poder transformador da Palavra depende do reconhecimento da autoridade divina.”[45] A igreja precisa obedecer à palavra pregada não pelo pregador, mas porque a autoridade vem de Deus. Se este compromisso e entendimento partir primeiramente do pregador será mais fácil para que a igreja também se comprometa. Shedd continua neste pensamento dizendo que “quando um mestre da Palavra demonstra um compromisso real com a revelação de Deus, os ouvintes estarão mais dispostos a aprender a se submeter igualmente aos conselhos divinos.”[46]

Tanto MacArthur quanto Shedd evidenciam uma preocupação em mostrar a grande tarefa que o pregador tem nas mãos. Com esse ensino eles refletem um princípio que se estende desde a reforma, que o pregador fiel à Escritura é na verdade a própria “boca de Deus”.[47] Para a teologia reformada, pregar biblicamente não é falar algo acerca da Palavra de Deus. Pelo contrário, a pregação bíblica se torna a própria Palavra de Deus. Sobre isso, Anglada afirma:

“Assim como a palavra inspirada não deixa de ser divina, embora escrita por autores humanos em pleno uso de suas peculiaridades humanas, assim também a palavra pregada não deixa de ser de Deus por ser mediada pela personalidade do pregador”. [48]

Calvino, em suas institutas diz:

“Mas, os que pensam que a autoridade da doutrina é desprezada pela baixa condição dos homens que foram chamados a ensiná-la, estes põem à mostra sua ingratidão, porquanto, entre tantos dotes preclaros com os quais Deus adornou o gênero humano, esta prerrogativa é singular: que a si digna consagrar as bocas e línguas dos homens, para que neles faça ressoar sua própria voz.” [49]

E o mesmo em seus comentários:

A fé procedente do evangelho seria deveras frágil, se fôssemos nós olhar somente para os homens. Toda a sua autoridade procede de reconhecermos que os homens são meros instrumentos de Deus e de ouvirmos Cristo nos falando por meio de lábios humanos. [50]

Portanto, o pregador não pode se esquecer do grande peso que carrega em seus ombros. Ele deve ser fiel à Palavra do Senhor para que ele seja a própria voz de Deus. Ele não é apenas um orador, mas é um mensageiro de Deus. Ele não pode simplesmente estar preocupado em agradar pessoas, mas preocupado em agradar aquele que envia a mensagem ao seu povo.

Uma última observação deve ser feita sobre a pregação expositiva. Afinal, até essa forma de pregação tem causado certa confusão nos pregadores. A função da exegese na pregação é apenas para “oferecer uma boa base para descobrir o sentido do texto”.[51] Mas, a exegese não deve ser apresentada em um sermão. Com essa preocupação em mente Thomas explica que a pregação deve sempre ser feita de maneira didática. Em seu artigo sobre pregação expositiva ele mostra que a pregação expositiva não é um comentário exegético sobre um determinado texto.[52]

Se o primeiro dever de um pastor é ser instruído no conhecimento da sã doutrina, e o segundo é reter sua confissão com firmeza e inusitada coragem, o terceiro é que adapte o método do ensino visando a produzir edificação, e não divague, movido pela ambição, por entre as sutilezas da curiosidade frívola; mas, ao contrário, que busque tão-somente o sólido avanço da Igreja. [53]

Se a mensagem vem carregada de informações complexas o pregador não está atingindo o objetivo da pregação. Mas, o pregador deve aprender a selecionar bem o conteúdo e apresentar a mensagem de maneira que até o mais simples consiga entender e ser edificado.

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Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno – 3/5

Por Rev. Felipe Camargo

3. Aplicação da mensagem

As duas grandes seções de Joel (Joel 1.8-14; 2.12-26) também mostram como ele se preocupava com que a mensagem fosse aplicada aos ouvintes. Após mostrar as calamidades e mostrar o erro, Joel chama o povo ao arrependimento. É importante que o pregador tenha essa preocupação em trazer mudança ao povo a quem prega. Usando a figura de John Stott, é necessário que o pregador construa uma ponte que ligue as duas épocas que são bem diferentes. [54]

De fato, a aplicação da mensagem e transformação dos ouvintes é obra do Espírito Santo. Como afirma Shedd, “pregar uma mensagem bíblica sem esse gracioso ministério do Espírito não produzirá qualquer benefício eterno”.[55] Um bom discurso sobre a Palavra de Deus sem o auxílio do Espírito não passará de uma boa palestra.[56] Mas, isso não exclui a tarefa do pregador de mostrar o que o texto exige dos crentes. É com isso em mente que Shedd também afirma:

“Se não se focaliza na necessidade dos ouvintes como pecadores, distantes de Deus e de sua vontade perfeita, o pregador pode facilmente disparar uma flecha sem ter um alvo em vista. Seguramente essa flecha se perderá”. [57]

Para Chapell, por exemplo, a aplicação é tão importante que ela não somente direciona como o pregador irá expor o texto [58], mas que sem a aplicação a exposição não está completa.[59]

Portanto, duas tarefas primordiais para um pregador são a interpretação do texto e a interpretação dos ouvintes. Mas estas não são as únicas tarefas. O pregador ainda tem o desafio de apresentar uma aplicação das verdades do texto dentro do contexto dos ouvintes. Por isso, Fergunson alerta que:

“É possível instruir, e ainda assim falhar ao nutrir aqueles a quem pregamos. É possível nos dirigirmos à mente, mas fazer isso com pouca preocupação em ver a consciência, o coração e as afeições alcançadas e purificadas, a vontade direcionada e a pessoa inteira transformada por uma mente renovada.” [60]

Por isso, no preparo do sermão o pregador só pode considerar sua tarefa completa no momento em que conseguir identificar as aplicações apropriadas para aquele determinado texto. [61]

Observando um pouco mais as aplicações de Joel pode-se perceber que ele não mostra apenas o que fazer, mas também como deveria ser esse arrependimento e o porquê desse arrependimento. Mais uma vez Joel se torna um padrão para o pregador atual. Essas três abordagens devem ser básicas para uma aplicação bem sucedidas.

• O que deveriam fazer: Eles deveriam se arrepender não apenas externamente, mas, principalmente internamente. Deveriam santificar suas vidas e se voltarem para Deus. Este é o arrependimento exigido para que pudessem receber o favor de Deus novamente.
• Como deveriam fazer: Primeiro diz que todos deveriam se reunir em assembleia solene, incluindo até mesmo as crianças. Todos deveriam fazer jejum, se vestir de pano de saco, se entristecer pelo pecado e rogar o favor de Deus. A maneira como deveriam se arrepender, portanto, é estabelecido pelo próprio profeta.
• Por que deveriam fazer: Como já apresentado, as consequências desse verdadeiro arrependimento trariam não apenas recompensas materiais, mas também espirituais. Não somente os castigos seriam retirados, mas também a promessa de que receberiam também o Espírito de Deus. Corretamente afirma Shedd: “Se os ouvintes não sabem porque devem cumprir as ordens de Deus, a mensagem pode ter um cheiro mais forte de sinagoga do que de igreja. Ela é mais parecida com regras vazias de homens, do que com a Palavra transformadora do Senhor”. [62]

Corretamente, portanto, Olyott afirma que o pregador deve dizer não somente “o que” fazer, mas também “como” fazer dando sugestões sempre que possível e apontar o “por que” fazer. [63]

O objetivo principal da aplicação é a preocupação em ver vidas sendo transformadas pela palavra de Deus. Se este não for o propósito tanto a aplicação quanto a própria pregação perdem o sentido de existir. De fato, esta tarefa tem se tornado cada vez mais difícil, como explica Mohler:

“Seja pelo pregador ou pelo púlpito, simplesmente não há muita admoestação na igreja hoje. Em nossos dias, isso seria considerado intolerante, invasivo e até mesmo uma imposição. Na verdade, seria mesmo uma arrogância. Mas a função do pregador é expor o erro e revelar o pecado”.[64]

No entanto, independente da dificuldade, o pregador precisa chamar o povo para uma mudança de vida. Se não fosse por essa preocupação, a mensagem de Joel não teria sentido algum.

O grande reformador Calvino era um claro exemplo de pregador que visava a transformação dos ouvintes. Para ele, o propósito da pregação do evangelho é exatamente para que Deus guiasse todas as nações à obediência da fé.[65] Lawson, falando sobre os princípios de pregação de Calvino, diz:

“Em suas pregações, repetidas vezes instou seus ouvintes a viverem a realidade do texto abordado. Ao falar do púlpito, o reformador enchia de persuasão afetuosa e apelos fervorosos. Ele pregava com intenção de impelir, encorajar e estimular sua congregação a seguir a Palavra”. [66]

Mas, como mostra Anglada, esta não era uma preocupação apenas de Calvino, mas também de outros reformadores e puritanos.[67]

Se toda aplicação deve visar a mudança de vida dos ouvintes,[68] então, todo sermão deve ter uma chamada à esta mudança. Mohler, quanto a isso diz:

“Creio que o alvo da pregação é compelir as pessoas a tomarem uma decisão. Quero que as pessoas me ouçam para entenderem exatamente o que a Palavra de Deus exige delas, quando eu termino. Elas devem dizer ‘Sim, eu farei o que Deus está dizendo’ ou: ‘Não, não farei o que Deus está dizendo’”.[69]

E complementa:

“Todo Sermão apresenta ao ouvinte uma decisão compulsória. Obedeceremos ou desobedeceremos à Palavra de Deus. A autoridade soberana de Deus opera por meio da pregação de sua Palavra para exigir obediência de seu povo” [70]

Shedd alerta que “quando uma mensagem não consegue transformar o coração, fatalmente o endurece”[71] O pregador, portanto, não deve se sentir alegre por elogios recebidos devido à sua eloquência, mas quando percebe que vidas estão sendo transformadas pela exposição da Palavra de Deus e aplicação dela.

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Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno – 4/5.

Por Rev. Felipe Camargo

4. As quatro condições da humanidade

Como já foi tratado anteriormente, a pregação deve levar o cristão à Cristo e isso é feito principalmente na aplicação. Este princípio evitará que o pregador faça aplicações legalistas. Como afirma Ellsworth, “a pregação tem como seu objetivo último a penetração redentiva”.[72] É necessário reforçar que embora seja outro caminho, não quer dizer que deve ser trabalhado separadamente. Como será apresentado, os dois caminhos podem andar em conjunto.

Para uma aplicação redentiva, e até mesmo cristocêntrica, o pregador deve compreender o quadro que a Bíblia apresenta de “criação, queda, redenção, nova criação”. Dan Doriani trabalha com estes conceitos ao falar de doutrina. E de fato, em toda a Escritura pode-se encontrar doutrinas. O próprio Doriani trabalha as profecias, algumas vezes, como se a “fonte de aplicação” destes textos fossem “doutrina”. [73]

a. Criação:

Quando é tratado do tema da criação, o pregador encontrará o ideal de todas as áreas da vida. Na Criação todos os mandatos funcionavam perfeitamente. O mandato cultural foi estabelecido antes da queda, apontando para a responsabilidade de cuidar daquilo que Deus criou. Isso demonstra que o trabalho em si é bom.[74] O fato do homem ter sido criado à imagem de Deus significa que sua responsabilidade não é somente de cuidar, mas desenvolver habilidades culturais.[75] O mandato social é estabelecido no sexto dia da criação. Este mandato é recebido juntamente com a bênção dando capacitação ao homem de estabelecer uma família e desenvolver todos os laços sociais (Gn 1.26-28). Neste ponto Plantinga afirma que agir amorosamente com o próximo é refletir a imagem de Deus.[76] O mandato espiritual também é encontrado na criação quando Deus estabelece ordens para não se comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e até na ordem da guarda do sábado.

Um ensino que o pregador não pode esquecer é que a criação não foi feita para a glória do homem e sim para Deus. Toda a criação foi criada boa para que Deus fosse glorificado nesta criação. A Bíblia afirma que a criação foi criada em Cristo e para Cristo (Cl 1.16). “Todas as suas obras são simplesmente o transbordar da sua infinita exuberância, para sua própria grandeza”. [77]

Isso não muda quando se fala da criação do homem. O objetivo de Deus ter criado o homem por meio de Cristo é para que por meio dele Deus fosse glorificado. Neste sentido, o pregador deve sempre lembrar que o objetivo principal do homem é “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”.[78] John Piper afirma que:

“A felicidade de Deus em Deus é a base da nossa felicidade em Deus. Se Deus não exaltasse e manifestasse alegremente sua glória, seríamos privados da base da nossa alegria. Os fatos de Deus procurar nosso louvor e de nele buscarmos prazer estão em perfeita harmonia. Porque Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele”. [79]

Portanto, a felicidade do cristão repousa sobre o Deus soberano. Textos como de Amós 5 onde há o alerta de “buscar ao Senhor e viver”, não deve ser aplicado como se fosse apenas uma ameaça, embora o texto trate de um alerta condicional. O pregador deve lembrar os cristãos que o dever de buscar ao Senhor não é uma obrigação simplesmente, mas que ele foi criado para isso. A alegria do cristão deve ser glorificar a Deus pelo que ele é. [80]

Na pregação dos profetas o tema da criação deve ser bem compreendido. Este tema é explorado nos profetas como argumentação para sua mensagem. Os princípios da criação ainda continuam. Não há como, por exemplo, tentar explicar e até aplicar Isaías 40 sem uma compreensão correta do tema da criação. A maneira como Isaías transmite a mensagem de consolo ao povo vem principalmente do ensino que Deus é criador.

b. Queda:

Na queda, é possível encontrar todos os mandatos sendo quebrados e prejudicados. O mandato cultural é afetado pela maldição lançada sobre a terra, fazendo com que ela produza cardos e abrolhos. O trabalho, não é mais algo agradável, mas o sustento é obtido pelo suor do rosto (Gn 3.17-19). No mandato social se encontra uma alteração não somente no casamento, mas há uma inimizade entre duas descendências (descendência da mulher e da serpente). O desentendimento entre o casal passa a ser algo dificultoso e com intrigas (Gn 3.16), os filhos trariam dores físicas (Gn 3.16) e emocionais (Gn 4.25). Se até mesmo entre irmãos há intrigas e morte (Gn 4.8), não é de se admirar que a sociedade se torne violente e má (Gn 4.23; 6.5). A comunhão do homem com Deus também já não é a mesma. A comunhão que havia no paraíso é anulada transformando-se em medo e vergonha (Gn 3.10). Poucos são os que reconhecem ao Senhor como o único Deus (Rm 3.9-18). Estes poucos lutam constantemente em viver uma vida digna diante de Deus (Rm 7.19).

Com a queda, a imagem de Deus no homem foi corrompida. Embora não esteja apagada, ela está prejudicada e ofuscada. O referencial do ser humano foi quebrado. O alvo do homem deixou de ser adorar a Deus e ter prazer nele. O homem deixou de adorar a Deus e passou adorar a criatura. Paulo trabalha com este ponto no seu primeiro capítulo de Romanos.

Como mostrado anteriormente, os profetas demonstram como o povo de Deus desobedeciam aos mandatos. Por isso, uma visão correta da queda auxilia o pregador a contextualizar os pecados cometidos pelo povo de Deus no Antigo Testamento, mostrando como os mesmos pecados são repetidos.

Mas, há ainda um ponto sobre a queda que amplia ainda mais o campo de aplicação, pois dá ao pregador, uma compreensão correta do mundo. Responde à perguntas do tipo “por que os ímpios prosperam?”, “Por que existem povos maus?”, “Por que o povo de Deus continua a se rebelar?”, “Porque existe tanta miséria, fome, morte, etc”. Conforme Platinga, durante anos os homens procuram uma solução para os problemas da humanidade, bem como sua cura. Portanto,

“Ser cristão é participar desse empreendimento humano comum de diagnosticar, de elaborar uma receita e de oferecer um prognóstico – mas fazer isto partindo de uma visão cristã do mundo; uma visão elaborada a partir das Escrituras, centralizada em Jesus Cristo, o Salvador”. [81]

Com isso em mente, o pregador deve tomar cuidado para não apresentar apenas o problema da queda, mas deve apontar para a solução, ou seja, para a redenção em Cristo.

c. Redenção:

Os profetas, por vezes, anunciavam as promessas de Deus que são chamadas de incondicionais. Essas promessas estão relacionadas à salvação e a aliança de Abraão até o Novo Testamento.[82] As profecias não eram apenas condenatórias, mas tinha um propósito de restauração do povo. Os alertas dos profetas ao povo por causa do pecado geralmente vinha acompanhada de uma mensagem de esperança para a pequena parte fiel. Algumas vezes esta redenção apontava para o final do castigo, outras para a vinda de Cristo e a nova aliança. Este é o meio mais fácil para uma aplicação cristocêntrica. Mas, ainda assim, o pregador deve ficar alerta para a intenção inicial do profeta. Para isso, o pregador deve ter em mente que o Senhor tornava conhecido para os profetas e através deles que os seus propósitos e objetivos escatológicos que foram revelados desde de Gênesis 3 “estavam sendo mantidos, colocados em prática e seriam plenamente alcançados e realizados.’’ [83]

Neste ponto, o pregador pode observar as mudanças que o cristão tem em Cristo. Em Cristo os mandatos podem ser restaurados, pelo menos em parte. Doriani, usando o exemplo do trabalho, afirma que na redenção, apesar de permanecer o pecado e a frustração, “o trabalho mais uma vez tem propósito”.[84] Paulo demonstra essa restauração em Efésios 5.18-9.9. Cunha, comentando este texto, mostra como os mandatos são aplicados através da plenitude do Espírito Santo. Ele apresenta o uso destes mandatos da seguinte forma:

• Efésios 5.18-20: O mandato espiritual: a. Falando uns com os outros salmos, hinos e cânticos espirituais; b. Falando entre vós com salmos, e hinos, e cânticos espirituais; c. Louvando e cantando de coração ao Senhor; d. Dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.
• Efésios 5.21-6.4: O mandato social: a. sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo (v.21); b. O relacionamento esposo/esposa; c. A submissão da mulher ao marido; d. O relacionamento pais/filhos.
• Efésios 6.5-9: O mandato cultural: a. O relacionamento servos/senhores: 1. com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo (v. 5); 2. não servindo à vista, para agradar a homens (v. 6); 3. como servos de Cristo, fazendo a vontade de Deus (v. 6); 4. de coração, como ao Senhor (v. 7).[85]

Neste sentido, o pregador pode apresentar, no sermão, uma forma de restauração destes mandatos mostrando o que pode ser mudado e como fazer isto. Um caminho que pode ajudar é fazer ligações com o Novo Testamento. Greidanus ressalta que uma interpretação teológica lembra o pregador da preocupação central dos profetas: “a preocupação de revelar Deus atuando na História com o propósito de restabelecer seu reino sobre a terra.[86]

A redenção em Cristo não deve trazer ao cristão um peso sobre seus ombros, pois Cristo oferece um jugo suave (Mt 11.30). É verdade que os cristãos precisam de punição e bons conselhos, “mas também precisam de abraços, alegria, presentes e festas”.[87] O pregador, portanto, deve trazer palavras de redenção.

d. Nova Criação:

Algumas das promessas incondicionais, tratadas anteriormente, são a restauração dos novos céus e nova terra e a restauração do povo de Deus.[88] Portanto, neste ponto, a aplicação gira em torno do que o crente pode e deve esperar. Quando se fala de nova criação a aplicação deve falar acerca da vida futura e para onde todas as coisas caminham. A criação desde a queda espera ansiosa pela redenção do pecado (Rm 8.20-22) e o mesmo acontece com o crente (Rm 8.23-25). A mensagem dos profetas incluía a esperança de um novo reino estabelecido sobre a terra, contudo, “uma terra transformada pelo poder de Deus”.[89] Neste sentido, pode-se afirmar que o mandato cultural será totalmente redimido. O trabalho, por exemplo, continuará sem o pecado e frustrações.[90] O mesmo acontece com o mandato social, ou seja, o relacionamento do homem com seu próximo. Pois, sem pecado, não haverá inimizades, já que isso é consequência do desejo pecaminoso do coração (Tg 1.1-4). Por conseqüência, o relacionamento com Deus, o mandato espiritual, sem o pecado será pleno e perfeito (1ª Co 15.28).

A esperança de um reino futuro e a restauração de todas as coisas eram temas recorrentes nas mensagens dos profetas, e por isso, essa esperança deve ser levado em conta na aplicação. Eles pregavam sobre a esperança de um reino vindouro de plena alegria. Nesta nova era Deus se regozijaria novamente com sua criação. “Este entrelaçamento de Deus, da humanidade e de toda a sua criação em justiça, complementação e regozijo, é o que os profetas hebraicos chamam de Shalom”.[91]

É verdade que nem todos os textos falam sobre a nova criação e por isso, o pregador deve ficar atento para isso. Deve-se evitar aplicar este tema se o texto não trata sobre esta esperança. Mas, ao mesmo tempo, não se deve esquecer o contexto da mensagem dos profetas. Os profetas tinham um entendimento do mal porque também tinham uma compreensão do bem.[92]

Como Olyott ressalta, não basta apenas dizer o que fazer e como fazer, mas é necessário mostrar o porque fazer, ou seja, qual esperança motiva o cristão a fazer o que Deus manda.[93]

Resumindo, com uma correta compreensão destas quatro condições da humanidade, o pregador encontrará algumas formas de aplicar o seu sermão. Na criação, o pregador mostra o ideal de todas as coisas. No pecado, o pregador apresenta um esclarecimento sobre a realidade e aponta para o que está errado. Na redenção, o pregador aplica a obra de Cristo na vida do cristão mostrando como e o que deve ser mudado. Na nova criação, o pregador pode mostrar o que o cristão pode esperar.

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Anunciando o evangelho num mundo pós-moderno – 5/5.

5. Pregação no Antigo Testamento: É Mesmo Necessária?

Mauro F. Meister

D. Martyn Lloyd-Jones afirma em seu livro Pregação e Pregadores que “a mais urgente necessidade da Igreja hoje é de verdadeira pregação; e como é a maior e a mais urgente necessidade da igreja, é também, obviamente, a maior necessidade do mundo”.[94] Essa necessidade certamente não mudou de figura desde a primeira publicação de Pregações e Pregadores em 1971.[95] O que mudou, no entanto, foi o interesse na pregação nos últimos vinte anos. Percebeu-se, no mundo cristão,[96] que não há substituto para a pregação. Antigas escolas liberais e tradicionais, que defendiam o uso de outras formas de ensino como substituto para a pregação, perceberam que esta antiga prática, de fato “não inventada pelo homem mas graciosamente criada por Deus”,[97] ainda é, e sempre será, o mais efetivo meio de proclamar as Boas Novas. [98]

Creio que o declínio na prática da pregação surgiu como fruto de vários fatores[99]: (a) descrença na autoridade das Escrituras; (b) valorização exagerada da arte de falar (retórica); (c) confusão entre pregação e exposição filosófica de uma verdade (“helenização” do evangelho)[100]; (d) massificação do evangelho (cultura “pop” e entretenimento). O despertamento para a pregação nos últimos vinte anos deu-se em reação a várias destas causas, porém nem sempre pelas razões corretas e de formas corretas. Por exemplo, o interesse de vários teólogos e pregadores modernos na pregação é uma reação à helenização do evangelho, porém, sem retorno à crença na autoridade das Escrituras.[101] O fato é que existe um “movimento” de pregação na igreja ao redor do mundo e também na igreja evangélica brasileira.

Ora, se a prática da pregação que efetuamos não é apenas uma opção apresentada nas páginas do Novo Testamento, mas sobretudo uma ordem direta nos Evangelhos (Mc 3.14; 16.15), nos ensinos apostólicos (2 Tm 4.2), e uma prática clara em ambos (Mc 1.38; At 5.42), o que devemos pregar e como devemos pregar, isto é, o conteúdo e a forma da pregação, são assuntos de fundamental importância para a vida do pregador e, conseqüentemente, para a vida da igreja. Presumo que os leitores interessados neste artigo crêem na pregação e na autoridade das Escrituras. Este artigo tem a ver com o que devemos pregar, ou seja, o conteúdo da pregação.

É realmente necessário pregar em passagens do Antigo Testamento? A pergunta pareceria desnecessária. Porém, é fato que pregações no Antigo Testamento são a exceção e não a regra nos púlpitos de nossas igrejas (as exceções servem para comprovar a regra). Se é verdade que os mestres da igreja, os pregadores da Palavra, devem anunciar “todo o desígnio de Deus”, como Paulo havia feito durante seu ministério em Éfeso (At 20.27), então creio que a exposição das Escrituras do Antigo Testamento está faltando nos púlpitos de nossas igrejas. Duas questões pertinentes devem ser levantadas: (a) Por que devemos pregar em passagens do Antigo Testamento? (b) Por que não se prega tão freqüentemente textos do Antigo Testamento quanto se esperaria?

Por que devemos pregar em textos do Antigo Testamento?

Gostaria de levantar apenas três aspectos sobre a necessidade de se pregar em textos do Antigo Testamento.[102]

(1) Em primeiro lugar, deve-se considerar que, para uma exposição clara a respeito de Jesus e de todos os seus atributos como a Segunda Pessoa da Trindade e filho de Deus encarnado, é necessário entender o Antigo Testamento. Ambos, o Antigo e o Novo Testamentos, são incompletos na ausência um do outro. Jesus não é uma figura obscura vinda do nada para salvar a humanidade. Jesus é o Messias prometido a Israel por Deus Pai para salvar o seu povo. O caráter de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, é revelado nas páginas do Antigo Testamento de maneira grandiosa e gloriosa. No entanto, nos púlpitos e nas congregações ao redor do mundo, existe uma tremenda ignorância a respeito do Antigo Testamento e do seu conteúdo. Facilmente percebe-se neles um conhecimento do conteúdo do Novo Testamento, ao mesmo tempo em que demonstram uma falta de conhecimento do Antigo Testamento. O conhecimento do Novo Testamento que não é correspondido pelo conhecimento do Antigo, é uma contradição e uma impossibilidade. As Escrituras do Novo Testamento começam com uma referência ao Antigo Testamento e centenas de outras referências são feitas no seu corpo. A falta de entendimento do conteúdo do Antigo Testamento implica em uma falta de entendimento claro do texto do Novo Testamento. O próprio Senhor Jesus, quando pregava, começava “por Moisés, discorrendo por todos os profetas” e assim, “expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.27).

(2) Para se entender corretamente o papel da Igreja como Corpo de Jesus Cristo é necessário entender o propósito de Deus na criação de Israel. O ensino do Novo Testamento a respeito de Israel só pode ser entendido à luz de toda a revelação de Deus, e não em compartimentos estanques. Não é sem motivo que se encontram tremendas divergências teológicas na área de eclesiologia, visto que o papel de Israel no Antigo Testamento é extremamente mal entendido. Um dos grandes perigos para a Igreja moderna é o de repetir os mesmos pecados da Igreja no Antigo Testamento, mesmo tendo à sua frente o exemplo de como não se deve agir. O mesmo problema se desdobra na área de escatologia, onde o Antigo Testamento, quando citado, na maioria das vezes é usado de maneira inadequada, senão absurda. É necessário que se compreenda que Jesus é o descendente de Abraão, pai de Israel, e sucessor de Davi, rei de Israel. Uma tentativa de se entender o papel da Igreja à parte destes fatos, levará a uma interpretação incorreta do seu papel. A verdadeira igreja de Jesus Cristo é edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e profetas” (Ef 2.20). Grandes estudiosos do Novo Testamento são de fato aqueles que têm grande conhecimento do Antigo Testamento.

(3) O povo de Deus não pode, de forma relevante, entender, participar e cumprir seu papel como filhos de Deus no mundo, sem uma compreensão adequada das Escrituras do Antigo Testamento. É óbvia, para pregadores e pastores com formação acadêmica, a necessidade de se compreender a criação e a queda da humanidade para se pregar, de forma coerente, pelo menos, a respeito de qualquer tema nas Escrituras. No ato da criação, Deus deu ao homem três mandatos: espiritual, social e cultural.[103] A possibilidade do cumprimento apropriado destes mandatos é proporcional ao que o povo de Deus conhece deles. Infelizmente, o conhecimento dessas ordens divinas é muitas vezes negado ao povo de Deus por seus pregadores. O Antigo Testamento é rico em ensinamentos sobre família, sociedade, culto e serviço, áreas em que o povo de Deus necessita grandemente de instrução. Em suma, para um ensino equilibrado e qualificado sobre vida cristã, é essencial que o povo de Deus conheça as Escrituras do Antigo Testamento.

Por que não se prega tão freqüentemente no Antigo Testamento quanto se deve?

Muitos aspectos da resposta a esta pergunta estão incluídos nas respostas à pergunta anterior. Entretanto, um outro é abordado aqui: Teologia Bíblica.

A despeito da pressuposição básica com respeito à revelação proposicional e à infalibilidade das Escrituras na teologia de nossa igreja,[104] existem fatores que não permitem uma visão global do ensino das Escrituras. Entre estes, estão a dicotomização teológica entre Antigo e Novo Testamentos e a compartimentalização teológica dentro dos testamentos. É comum encontrar-se nos nossos currículos de seminário e literatura teológica a dicotomia Teologia Bíblica do Antigo Testamento vs. Teologia Bíblica do Novo Testamento. Essas divisões não são apenas reflexo de uma necessidade prática, porém, de um pressuposto teológico nem sempre muito claro: o de que existe mais de uma Teologia Bíblica. A prova mais evidente desse fato são nossos púlpitos, onde, via de regra, o Novo Testamento é destacado em prejuízo do Antigo Testamento. Em geral, Antigo e Novo Testamentos são colocados tão à parte um do outro que é necessária uma explicação complexa dos elos que os unem. Também dentro dos próprios testamentos a divisão é evidenciada quando se fala de teologia joanina, paulina, sinaítica, etc.[105] É natural que existam barreiras em termos históricos devido à distância temporal e cultural entre os Testamentos e a apropriação destes no cânon da Igreja. Essa barreira é também evidenciada pelo fato da revelação ter um caráter progressivo. Porém, o valor teológico de ambos os testamentos não é para ser comparado. Creio que este conceito está implícito nas Escrituras (Hb 1.1-4), assim como está explicitamente descrito no capítulo I da Confissão de Fé de Westminster. Deus se revelou progressivamente e é extremamente importante que as Escrituras sejam lidas e entendidas nesta perspectiva. Nas palavras de E. Clowney, “Essa revelação não foi dada em um só tempo nem na forma de um dicionário teológico”.[106]

Também um só Deus se revelou e isto nos mostra a unidade das Escrituras como revelação lógica e coerente.[107] Apesar deste conceito ser estudado freqüentemente sob o título de Teologia Dogmática (Sistemática), ele é parte do conceito central da Teologia Bíblica. Gerhardus Vos define Teologia Bíblica como “o ramo da teologia exegética que lida com o processo da auto-revelação de Deus depositada[108] na Bíblia”.[109] Para uma exposição fiel da verdade das Escrituras é necessário que haja entendimento da Teologia Bíblica como um todo e equilíbrio na exposição dessa teologia. Para isto é necessário que haja equilíbrio na exposição entre Antigo e Novo Testamentos. Creio que uma Teologia Bíblica sem o devido equilíbrio é um dos principais motivos porque não há pregação mais consistente e sistemática das Escrituras do Antigo Testamento.

Um pressuposto que leva ao desequilíbrio na Teologia Bíblica é o de que a familiaridade com a Teologia Sistemática é suficiente para promover um conhecimento abrangente das Escrituras. Teologia Sistemática e Teologia Bíblica são disciplinas distintas, porém interdependentes. A Teologia Sistemática séria não é apenas um amontoado de “textos-prova” descontextualizados. Quando elaborada com seriedade, ela leva em consideração a contribuição da Teologia Bíblica como matéria exegética. A Teologia Bíblica, quando também elaborada com seriedade, considera sempre a perspectiva abrangente da Teologia Sistemática. Assim, ambas as disciplinas são mantidas em uma tensão constante e renovada, conduzindo ao desenvolvimento de uma teologia sadia e relevante que, por sua vez, deve ser ministrada ao povo de Deus do púlpito de nossas igrejas, através da exposição equilibrada do Antigo e do Novo Testamentos.[110]

O que devemos fazer?

Penso que diante dos fatos devemos rever algumas de nossas tradições. Tradições podem ser benéficas ou maléficas, dependendo de como são passadas e recebidas por novas gerações. Em muitos casos, boas tradições sofrem distorção e acabam sendo praticadas sem objetivo, ou até mesmo hipocritamente. Basta ler as páginas do Novo Testamento e as críticas feitas por Jesus quanto às várias tradições dos israelitas da época. Se sabemos porque devemos pregar o Antigo Testamento e qual é a maior dificuldade de aproximação às Escrituras do Antigo Testamento, devemos também rever a nossa tradição quanto à pregação do mesmo. Essa revisão precisa acontecer em dois níveis: individual e coletivo.

O nível individual concerne aos padrões que se adota quanto à pregação do Antigo Testamento. Temos mesmo o desejo de ensinar, como pregadores da Palavra, “todo conselho de Deus”, e a convicção de que devemos fazê-lo? De que modo a congregação que nos escuta constantemente como pregadores da Palavra percebe as riquezas dos ensinamentos do Antigo Testamento? Como algo obscuro, sem sentido e até mesmo terrível de se ouvir e ler, e que só serve para algumas partes do exercício litúrgico? Uma parte das Escrituras que deve ser relegada a segundo plano? Se a resposta a estas questões é positiva, então a pregação das Escrituras no Novo Testamento também precisa ser revista.

O nível coletivo concerne aos que estão a nossa volta e ministram a outros que são ou serão os pregadores da Palavra. Qual o papel e a importância da Teologia Bíblica? Como ela é ensinada nas instituições de sua igreja? Quais os frutos da mesma na proclamação do Evangelho? Qual a ênfase dada ao ensino de uma Teologia Bíblica que reflete a unidade das Escrituras? As respostas a estas questões devem nos ajudar a perceber quais as tradições que precisam de revisão.

Fonte: Bereianos Apologética 

Divulgação: Eis Me Aqui

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