Estudos Bíblicos

O chamado de Isaías para ser profeta

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Alguns lembretes são necessários para os/as estudantes do Livro do Emanuel: primeiro, a tradução é própria do autor deste comentário, e segue a fraseologia do texto hebraico; segundo, este comentário não acompanha os padrões da exegese clássica, de modo pleno, mas procura…

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Alguns lembretes são necessários para os/as estudantes do Livro do Emanuel: primeiro, a tradução é própria do autor deste comentário, e segue a fraseologia do texto hebraico; segundo, este comentário não acompanha os padrões da exegese clássica, de modo pleno, mas procura destacar os elementos voltados para a compreensão do Emanuel.

 

 

1. O texto de Isaías 6.1-13

(1) No ano da morte do rei Uzias. E eu vi Adonai sentado sobre um trono alto e elevado. E suas barras enchiam o templo (2) Serafins colocavam-se acima dele; seis asas para cada um. Com duas cobriam seus rostos; com duas cobriam seus pés, e com duas flutuavam. (3) E gritava um para o outro e dizia:

Santo, santo, santo, Javé Sebaote (dos exércitos)!

Cheia está toda a terra de sua glória!

(4) E tremiam os pinos da soleira por causa da voz que gritava. E a casa (templo) enchia-se com fumaça.

(5) E eu disse:

Ai de mim!

Eis que! Eu estou destruído!

Eis que! Um homem de impuros lábios eu sou.

E em meio a um povo de impuros lábios eu habito.

Eis que! Javé Sebaote viu meus olhos.

(6) E voou para mim um dos serafins, e em sua mão uma brasa, com uma espevitadeira tirara de cima do altar. (7) E fez tocar minha boca e disse:

Eis! Isso tocou em teus lábios.

E se afasta tua culpa,

E teu pecado está perdoado.

(8) E eu ouvi a voz de Adonai dizendo:

A quem enviarei?

E quem irá por nós?

(9) E eu disse:

Eis-me! Envia-me!

E ele disse:

Vai e fala a este povo:

Ouçam insistentemente, mas não entendais!

Olhem continuamente, mas não compreendais!

(10) Torna gordo o coração deste povo,

e seus ouvidos faze pesados!

E seus olhos torna grudados!

Para que não olhe com seus olhos!

E com seus ouvidos não ouça!

E seu coração não entenda!

E seu coração entenda,

e converta,

e se cure!

(11) E eu disse:

Até quando Adonai?

E ele disse:

Até que se devastem cidades sem morador

e casas sem pessoas.

E o solo se desolando em deserto.

(12) E Javé afastará para longe o ser humano, e haverá muito abandono em meio à terra. (13) E ainda houver nela uma décima parte, será destruída novamente como uma árvore majestosa e como uma árvore grande que na derrubada deixam estela nela, semente santa sua estela.

1.1 A estrutura do texto de Isaías 6.1-13

I. Referência histórica “No ano da morte do rei…” v. 1a.

II. Reportagem do chamado do profeta Isaías v. 1b-13

A. Observações iniciais do profeta v. 1b-4

1. Visão de Javé e dos serafins v. 1b-2

2. Audição de uma doxologia v. 3

3. As circunstâncias v. 4

B. Reação do profeta Isaías: lamentação v. 5

1. “Ai de mim, estou perdido”

2. “Sou um homem de lábios impuros…”

2. “Os meus olhos viram o rei…”

C. A purificação de Isaías v. 6-7

1. O vôo do Serafe até Isaías v. 6

2. A purificação v. 7

a. O toque nos lábios

b. O oráculo de purificação

D. O diálogo entre Javé e Isaías v. 8

1. Questão de Javé – “Quem hei de enviar? (…)

2. Resposta de Isaías – “Eis-me aqui (…)

E. A missão de Isaías v. 9-13

1. Palavra de Javé v. 9-10

a. Introdução v. 9a.

b. Conteúdo da mensagem v. 9b

c. Interpretando a mensagem de Javé v. 10

2. Questão de Isaías “Até quando, Senhor?” v. 11a.

3. Resposta de Javé v. 11b-13

1.2 Buscando entender o texto de Isaías 6.1-13

É muito importante entender que o capítulo 6 possui duas partes: a primeira refere-se à informação da data do chamado do profeta – “No ano da morte do rei Uzias” (v. 1a); a segunda parte mostra a reportagem do chamado de Isaías (v. 1b-13). Tanto uma quanto a outra constituem-se declarações de fé em Javé, o Deus do povo bíblico que – ao ver o povo inseguro e aflito, e ameaçado e mal liderado – interveio na sua história, anunciando que Deus estava presente em sua luta.

2. Comparando esta perícope com outros relatos bíblicos paralelos

Isaías 6.1-13 é uma reportagem do mesmo estilo literário encontrado em alguns textos importantes da Bíblia:

Êxodo 3.1-11 (Moisés),

Juízes 6.1-18 (Gedeão),

e Jeremias 1.4-10 (Jeremias)

É interessante perceber que a reportagem do chamado de Isaías possui quatro momentos que coincidem com as narrativas acima mencionadas, a saber:

a) Circunstância do chamado divino:

– do chamado de Moisés = o povo hebreu era escravo no Egito;

– do chamado de Gedeão = luta pelo assentamento em Canaã;

– do chamado de Isaías = Guerra Siro-efraimita e morte de Uzias;

– do chamado de Jeremias = luta entre Egito e Babilônia pela posse de Canaã

b) O chamado divino tem por finalidade a missão:

– Moisés: libertar o povo hebreu da escravidão (Ex 3.8-10);

– Gedeão: libertar os hebreus das mãos dos midianitas (Jz 6.14);

– Isaías: resgatar, no rei Acaz e no povo de Judá, a fé em Javé (Is 7.9);

– Jeremias: derrubar o inútil e construir e plantar a vida plena (Jr 1.10).

c) O chamado provoca perplexidade e objeção.

– Moisés: “quem sou eu para ir… e tirar do Egito os filhos de Israel?” (Ex 3.11);

– Gedeão: “… a minha família é a mais pobre em Manasses” (Jz 6.15);

– Isaías: ” Sou um homem de lábios impuros…” (Is 6.5);

– Jeremias: “…não sei falar , porque não passo de uma criança” (Jr 1.6).

d) O chamado divino e a ocupação de cada um..

– Moisés: “apascentava o rebanho de Jetro” (Ex 3.1-6);

– Gedeão: “… malhava o trigo no lagar…” (Jz 6.11);

– Isaías: meditava no Templo de Jerusalém (Is 6.1-2);

– Jeremias: envolvido em atividades de adolescentes (Jr 1.6).

Aprofundando a análise:

(1) A chamado divino, segundo a Bíblia, ocorre em um momento de grande crise e angústia do povo;

(2) Deus não leva em consideração a condição social e econômica, nível de cultura, idade e pureza do/a vocacionado/a para exercer a missão profética;

(3) A missão de uma pessoa vocacionada é destruir a maldade e a injustiça e construir a vida plena na sociedade humana.

2. Aprofundando o conhecimento da circunstância do chamado de Isaías.

a) A ocorrência foi no Templo de Jerusalém. Esta dedução se impõe por vários motivos:

– o Senhor sentado sobre um trono (v. 1),

– faz menção do Templo como local da visão (v. 1),

– as visões de Javé e os serafins com seus cânticos de louvores (v. 2b-3),

– o termo hebraico bait casa funciona como sinônimo de templo (v. 4),

– o uso do nome Javé dos Exércitos é próprio de Jerusalém (v. 5),

– o ato de purificação é próprio do templo de Jerusalém (v. 5),

– a espevitadeira é um objeto que faz parte do altar do Templo (v. 6).

b) O chamado de Isaías só acontece após

a visão (v. 1b-2),

a audição (v. 3),

a sua confissão de pecado (v. 5)

e a sua purificação (v. 6-7).

Aprofundando a análise:

(1) O relato de Is 6.1-13 descarta a possibilidade do profeta estar dormindo e sonhando ou desfrutando momentos de êxtase. Isaías permanece plenamente consciente.

(2) O Templo e o culto são também lugares onde se dão o chamado divino;

(3) O pecado de Isaías não impediu que Deus o chamasse para ser um profeta;

(4) A confissão de pecado e a purificação fazem parte da preparação para a missão do profeta.

3. A importância do chamado de Isaías para o Livro do Emanuel

Para analisar com profundidade esta questão, é preciso abordar dois pontos:

3.1. A extensão do Livro do Emanuel

O Livro do Emanuel (Isaías 6.1-9.6) tem princípio, meio e fim. Ele começa com o chamado de Isaías (6.1-13) e termina com o anúncio da libertação de Israel (9.1-6). O miolo desse livro é a atividade profética de Isaías (7.1 – 8.22).

3.2 O momento do chamado profético e da profecia

A frase que abre o Livro do Emanuel é freqüentemente desdenhada pelos/as leitores/as.

“No ano da morte do rei Uzias” (6.1a).

Contudo, é preciso prestar atenção nesta frase. Ela quer afirmar que:

– profecia não é um conjunto de palavras (não necessariamente, cultual ou eclesiástico);

– profecia é a interpretação da história e a leitura da vida do povo, através de

pessoas autorizadas e legitimadas pela palavra de Deus;

– profecia tem seu momento certo e devido.

3.3 A importância da frase “No ano da morte do rei Uzias” (Is 6.1a)

– Ela quer indicar a data da morte de um grande rei de Judá;

– Ela quer mostrar que a profecia é uma tarefa difícil, sombria e desafiadora.

– Esta frase é, acima de tudo, uma afirmação profética e teológica.

Ela quer dizer que quando a esperança do povo se esgota, Deus intervém em favor do povo e passa a agir. É partir da morte de um grande rei, Uzias, e de um momento sombrio, que o profeta anuncia o Emanuel.

O Emanuel visto a partir do chamado de Isaías:

(1) O Livro do Emanuel deve ser analisado como um todo. Assim, a reportagem da vocação de Isaías (6.1-13) deve ser vista como o primeiro capítulo desse livro. Sem a sua leitura e compreensão, o/a leitor/a não entenderá seu conteúdo e objetivo.

(2) A informação – “No ano da morte do rei Uzias” (v.1a) – é uma importante declaração de fé na atuação de Deus. Ele quer comunicar aos leitores/as que Deus está atento ao sofrimento do rei e à angústia do povo, enviando um profeta para anunciar que Ele não estava distante, mas presente: Emanuel, isto é, “conosco está Deus”.

(3) A reportagem de um chamado divino, para uma missão específica, é uma parte importante da Bíblia. Esses relatos querem destacar a legitimidade divina do profeta diante de tantos opositores à vontade de Deus. Particularmente, fica claro que no Livro do Emanuel o grande opositor era o rei Acaz e o seu medo de tomar a sério a palavra de Javé.

Autor: Tércio Machado Siqueira

Fonte: Esboços de Sermões

 

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