Apostolado contemporâneo Teologia

Pontos Discutíveis no Movim. Neopentecostal!

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por

Wemerson Marinho

O movimento neopentecostal cresce muito atualmente. No entanto, esse crescimento não nos impede de questioná-lo, pois, afinal, nós somos vítimas do pragmatismo [1] carismático, que pensa que, se algo deu certo, só pode ser bom e verdadeiro. A nossa base de julgamento é a Palavra, nossa regra de fé e prática. Sem a pretensão de fazer uma abordagem técnica sobre o assunto, discorreremos sobre alguns pontos discutíveis desse movimento, analisando-o sob três perspectivas: a eclesiológica, a teológica e a prática.

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Salientamos que estaremos abordando o tema neopentecostalismo [2] e não sobre o movimento pentecostal [3]. Sobretudo, não é nossa intenção atacá-lo como movimento em si, mas apenas refletir sobre os pontos listados acima.

Pontos discutíveis da Eclesiologia [4] Neopentecostal

Nossa abordagem irá explorar apenas três itens: o culto, a evangelização e o ofício ministerial.

a) O culto neopentecostal

Temos entendido que o propósito exclusivo de um culto é a adoração a Deus e a edificação da alma adoradora. Contudo, não se pode dizer que a igreja neopentecostal tem seguido este propósito, isto porque a ênfase dos seus cultos, geralmente, não é a glória de Deus. Na “igreja neopentecostal”, o conceito de culto é ambíguo, pois, ao invés de se cultuar, fazem-se “campanhas” de cura, revelação, prosperidade, etc.

Desta forma, se Deus comparecer nestes “cultos”, terá que ser para servir a agenda semanal das tais igrejas e não para ser adorado. A liturgia deles é cheia de “glória a Deus”, mas é tão desvirtuada de um padrão bíblico que a ênfase recai sobre fenômenos (pouco comprovados) como curas, milagres e testemunhos, muitos dos quais enfadonhos e que resultam mais em projeção pessoal do que em exaltação ao Senhor.

As pregações, quando não são pura aberração, são cheias de confissões positivas do tipo: “Você vai prosperar, use sua fé e prospere, hoje Jesus vai te curar, Deus vai mudar sua vida…” Não existe, portanto, na maioria destas igrejas, uma exposição das Escrituras sequer razoável, capaz de tirar o leigo da ignorância teológica total. Por este fato, quase sempre a palavra do líder tem um valor relativo ao da Palavra de Deus e o que ele determina passa a ser seguido como regra de fé e prática.

Esta valorização da “tradição oral” não difere muito da atitude de uma igreja que se chama primitiva, cujo chefe supremo é considerado infalível no que fala e somente agora, por pressão evangélica, é tolerante com a leitura bíblica.

Outro problema é o que o culto neopentecostal, que não tem espaço para a adoração, corrompe-se mais ainda com a demasiada cobrança de oferta dos fiéis (quase sempre prometendo a estes soluções da parte de Deus) o que tem dado a estes “cultos” um caráter mercantilista e explorador. Não somos contrários a se pedirem ofertas, diga-se de passagem, mas não concordamos com a falta de bom senso e critério bíblico na administração destas coisas no culto a Deus.

b) A Evangelização Neopentecostal

A evangelização do movimento neopentecostal apresenta um problema seriíssimo, que é o proselitismo [5], característica inconfundível das seitas. Muitos deles são do tipo que “pescam no aquário dos outros” por alimentarem a crença de que são os detentores da verdade, enquanto os demais estão enganados. A igreja verdadeira não faz prosélitos, faz discípulos.

A busca do crescimento numérico por meio do proselitismo é no mínimo insensata, pois podemos até persuadir alguém a ser um religioso, mas só Deus pode transformá-lo em nova criatura. (Às vezes penso que as campanhas evangelísticas de nossos dias têm mais aparência proselitista do que evangelística, afinal, a maioria delas é realizada para crentes.)

Outro problema relacionado à evangelização do movimento neopentecostal é a exagerada dependência da mídia. O uso da mídia é, sem dúvida, muito importante para a igreja, mas a dependência da mesma significa a insubordinação ao Espírito. Antigamente a igreja crescia sob a influência do Espírito e trabalho de evangelização pessoal; hoje, a estratégia de algumas igrejas tem sido a de colocar um anúncio apelativo no rádio ou televisão, convidando as pessoas e prometendo-lhes a solução de seus problemas. E eu pergunto: qual igreja que promete cura, paz, prosperidade e solução de conflitos familiares, que não vai crescer? No entanto, praticando isto a igreja deixa de ser igreja do IDE e passa a ser igreja do VINDE, a evangelização passa a ser estratégia de marketing e os que se “convertem” para a igreja, passam a ser clientes e não ovelhas.

Ademais, o evangelismo neopentecostal carece de um conteúdo teológico, que é essencial para a elucidação de verdades elementares da fé cristã. Suas estratégias são pregar promessas de uma realidade virtual e não pregar um evangelho de genuíno, o evangelho de Jesus.

c) O Ofício Ministerial Neopentecostal

Enquanto nas igrejas históricas os candidatos ao ministério pastoral passam por uma preparação e zelosa avaliação quanto ao caráter e chamado, no movimento neopentecostal qualquer um pode ser “pastor”. Os critérios baseiam-se em saber pregar, falar línguas estranhas, ter sido revelado, etc e, por esta razão, muitos líderes neopentecostais são tão desvirtuados dos caracteres de um verdadeiro homem chamado ao ministério.

Poucos são aqueles que tem alguma preparação teológica. Segundo Paulo, as características de um homem apto para o ministério devem estar relacionadas ao seu caráter irrepreensível, com sua capacidade de ensinar, com sua boa administração do lar, com sua competência nos relacionamentos, com sua boa conduta para com o mundo, etc (1 Tm 3).

Além de tudo, cada pastor neopentecostal é livre pensador, ou seja, pode pregar o que acredita, sem a supervisão de ninguém, o que favorece ao surgimento de tendências heréticas e inovações doutrinárias no meio deles. E quando são questionados por alguma autoridade, se revoltam e abrem suas próprias igrejas dirigindo-as como bem lhes apetece.

Tendo falado sobre a questão eclesiológica da igreja neopentecostal, apresentaremos agora alguns pontos teológicos questionáveis que eles sustentam.

Pontos Discutíveis da Teologia Neopentecostal

O Rev. Roberto Laranjo, em seu artigo O Neopentecostalismo e suas implicações, publicado pela revista Rhêmata [6] , destaca três tópicos teológicos que o neopentecostalismo interpreta de forma questionável. Tomaremos sua sugestão de tópicos para refletirmos sobre a teologia neopentecostal:

a) A Exclusividade das Escrituras

Os neopentecostais afirmam que a Bíblia é a Palavra de Deus e, com isto, nós concordamos. Mas para eles a palavra dos “profetas”, dos visionários também é a Palavra de Deus. E por isto baseiam suas vidas e suas doutrinas também em visões, “novas revelações” e em experiências místicas.

A Bíblia é a revelação perfeita e final de Deus para o homem; visões e profecias, foram acessórios usados neste processo de formação da Sagrada Escritura. Hoje porém, temos a fé de que a Palavra de Deus é viva, eficaz e suficiente (HB4.12) sendo esta a nossa única regra de fé e prática. E uma vez que o cânon [7] do Novo Testamento foi concluído, devemos nos apoiar apenas na Palavra e em nada mais.

Não ignoramos a iluminação do Espírito propiciada para que entendamos mais profundamente a Palavra, mas negamos que sejam necessárias “novas revelações”. Em Jo 16.13 o Senhor Jesus diz que o Espírito nos guiaria em toda a verdade e não que nos revelaria “novas verdades”.

b) A Trindade

A maioria deles defende a doutrina da Trindade, como nós também; porém a pessoa mais enfatizada no culto neopentecostal é o Espírito Santo. Praticamente tudo no culto é atribuído ao Espírito, cura, expulsão de demônios, decisões, etc. Com isso, o papel das outras pessoas da Trindade é ignorado. Parece que eles consideram o Espírito superior aos demais membros da divindade, ou pelo menos, mais importante.

No entanto, a Bíblia diz que o Filho glorifica o Pai e, o Espírito, glorifica o Filho, que por sua vez, derrama o Espírito que faz o homem orar ao Pai em nome de Jesus (Jo 13. 32; 14.13; 16.14). A verdade é que, embora a Divindade seja composta de três Pessoas distintas, elas formam uma unidade essencial perfeita. De forma que é impossível um existir e agir sem a participação de todo o conselho divino .

c) A Superficialidade Espiritual

Devido à ênfase na liturgia envolvente, nas curas e nos exorcismos, os neopentecostais são, na sua maioria, superficiais na fé e no conhecimento das Escrituras. Este superficialismo os faz presa fácil de perniciosas heresias e de lobos vestidos de cordeiro. Por isto também é que as comunidades neopentecostais são tão suscetíveis ao empirismo [8] , misticismo [9] , materialismo e muitas outras tendências tão nocivas à fé cristã.

O resultado desta superficialidade é a imaturidade manifesta numa vida carnal não experimentada no fruto do Espírito Santo. Não estamos dizendo que todos os neopentecostais são leigos, por que não são. Contudo, a hermenêutica deles é profundamente comprometida com “novas revelações” o que os faz suscetíveis a tendenciosidade.

d) Quanto à Salvação

O pensamento deles sobre salvação não se limita a considerá-la apenas obra do Espírito, mas a ensinam como produto da cooperação humana, A salvação torna-se, portanto, tão inflacionável como nossa economia: hoje tenho, mas amanhã posso ter perdido.

Contudo, a Bíblia ensina com muita segurança que a salvação é pela graça e não por méritos previstos ou praticados pelo homem, 2 Tm 1.9, e que a salvação é eterna, Hb 5.9. O conceito arminiano [10] tem larga expressão e até sofre uma radicalização dentro do neopentecostalismo.

Como conseqüência, alguns se revestem de um humanismo tão grande, à semelhança de Erasmo de Roterdam [11] , que chegam a pregar que Deus depende carentemente da vontade humana para realizar seus desígnos e, que se o homem não quiser, Deus não pode fazer nada senão esperar até o dia que tal pessoa resolver dar uma chance para Ele.

Este, sinceramente, não é o meu Deus, nem o revelado na Bíblia e na história como soberano, criador e mantenedor de todas as coisas. Estas exaltações do “livre arbítrio humanas” são contrárias à Soberania de Deus. Se falarmos de liberdade de escolher no homem, não nos esqueçamos da liberdade de escolher de Deus. E não é injusto Deus fazer o que lhe aprouve, assim como não é injusto você queimar seu carro se o desejar fazer.

Pontos Discutíveis da Prática Neopentecostal

Este tópico pode parecer um pouco estranho, tendo em vista que já abordamos a prática eclesiológica e teológica neopentecostal. Eu poderia dar outro título, pois não me faltariam opções, contudo, eu quero abordar aqui a conclusão prática dos dois tópicos acima. Ou seja, o resultado de uma eclesiologia e teologia distorcida é uma praxe confusa e antibíblica. Vejamos, pois, algumas praxes neopentecostais cuja natureza são incoerentes com o ensino bíblico.

a) A Prática Mística Neopentecostal

Misticismo é o conjunto de normas e práticas que tem por objetivo alcançar uma comunhão direta com Deus. O problema é que quase sempre, os místicos são induzidos a prescindir da Bíblia e a se basear apenas em suas experiências. Este é um dos grandes problemas dos neopentecostais, pois eles colocam suas experiências acima da Bíblia e dão a ela uma interpretação particular fora dos recursos hermenêuticos.

O Misticismo neopentecostal é a mistura de figuras, objetos e símbolos para representarem coisas espirituais. Eles tomam figuras do Antigo e Novo Testamento e as espiritualizam, transformando-as em “proteções” semelhantes às usadas pelas magias pagãs. Deste ato, aparecem crentes com fitinhas no braço, com medalhas de símbolos bíblicos, ungindo portas e janelas com azeite, colocando sal ao redor da casa para impedir a entrada de maus espíritos; outros bebem copos de água abençoada, usam óleos consagrados em Jerusalém, guardam gravetos que misteriosamente aparecem brilhando nos montes, ungem roupas para libertar as pessoas e etc.

Estas coisas se estabelecem como pontos de contato e não passam de artifícios que roubam o lugar da fé e da eficácia da obra de Cristo. Esta prática é rejeitada tantos pelos Pentecostais como pelas Igrejas Históricas, visto ser uma fruto de uma doutrina pagã que visa estabelecer por meio de objetos um ponto de contato entre Deus e o homem. As magias pagãs estabelecem como pontos de contatos objetos como amuletos, talismãs, patuás, cristais, pedras e coisas para “proteção”.

Basicamente, a cosmologia neopentecostal brasileira é sincretizada pelo cristianismo europeu, pelo animismo [12] dos índios e pelo fetichismo [13] dos africanos.

O animismo prega que existe uma alma ou poder, a permear cada objeto. E o fetichismo manifesta-se na cultuação, veneração ou uso religioso de um objeto que representa uma pessoa, coisa, divindade ou ritual. Estas práticas pagãs não possuem uma relação muito intima com os pontos de contato [14] ?

Tais ensinos anulam a obra de Cristo, criando um novo meio de justificação ou arranjando um amuleto de fé para as pessoas se apoiarem. O problema é que tais pessoas acabam baseando sua fé em objetos assim como fez Gideão (Jz 8.27). A questão não é se Jesus ou os apóstolos usou algumas vezes objetos em suas ministrações, mas no que isto pode implicar. O ponto de contato dos verdadeiros cristãos é a fé em Jesus, pois Ele é o único mediador entre Deus e o homem.

b) A Prática Legalista e Liberal do Neopentecostalismo

Em matéria de ética, os neopentecostais em geral se comportam de forma legalista [15] ou “liberal” [16] , sendo poucos deles equilibrados. Os legalistas enfatizam, sobretudo, a observância dos usos e costumes como um processo de santificação e preparação para a salvação. Desenvolvem um “evangelho ascético” [17], que opta pela “mortificação da carne”, isolamento social e confinamento espiritual como um tipo de disciplina pessoal. Os “liberais” já não se importam com mudança de vida; preocupam-se apenas com prosperidade, saúde e felicidade neste mundo. Estes últimos vivem uma espécie de “evangelho hedonista16 ” que enfatiza apenas o prazer como o fim último da vida.

Somente um entendimento correto acerca da doutrina da graça de Deus, poderia conduzir estas pessoas a uma coerência bíblica e, conseqüentemente, a uma prática religiosa sadia.

Enfim, existem ainda muitos pontos discutíveis do neopentecostalismo que aqui não apresentamos, no entanto, esta abordagem dará a você uma visão geral do movimento. É bom lembrar que nossa exposição não é contra os crentes, mas contra o sistema neopentecostal.

NOTAS

[1] – Filosofia que prega que a verdade é medida pelos efeitos que produz, basicamente, se deu certo é verdade, se não, não é verdade.

[2] – Movimento surgido em meados XX que enfatizava o batismo com o Espírito Santo e os dons espirituais, dinamizando o método litúrgico e incluindo em sua teologia, doutrinas rejeitadas pela fé apostólica e ortodoxa.

[3] – Movimento evangélico surgido no Estados Unidos no início do século XX que enfatizava o batismo com Espírito Santo como uma bênção subseqüente à conversão e a contemporaneidade dos dons espirituais .

[4] – Matéria da teologia sistemática que estuda a respeito da igreja.

[5] – Pessoa que abraça uma religião ou uma doutrina. Fazer proselitismo é tentar converter alguém a uma religião.

[6] – Revista de escola dominical publicada pela Igreja Presbiteriana semestralmente em Ipatinga.

[7] – Conjunto de livros que compõem o Novo e Velho Testamento que foram reconhecidos pela igreja cristã como inspirados por Deus.

[8] – Doutrina que prega que todo o conhecimento adquirido pelo homem passa necessariamente pelos sentidos.

[9] – Conjunto de normas e práticas quem tem por objetivo alcançar uma comunhão direta com Deus. O problema que os místicos sempre exaltam a experiência em detrimento a Palavra.

[10] – É uma doutrina elaborada como uma enérgica reação à teologia de Calvinista. [Para conhecer melhor este tema, leia o texto: Os Cinco Pontos do Calvinismo.]

[11] – Teólogo humanista que se opôs a Lutero na questão da livre arbitro.

[12] – Crença de que existe uma alma a permear cada objeto. Para o animista todo o objeto tem alma ou poder e, basicamente, esta é uma crença dos índios.

[13] – Fetiche é um objeto de culto forte que possui associação simbólica com o ritual, divindade, pessoa ou coisa que representa.

[14] – São objetos usados como meios de se transmitir uma bênção, ou uma cura, etc.

[15] – Aquele que pratica o legalismo, sistema que enfatiza as obras como coadjuvantes na salvação.

[16] – Esta expressão denota as pregações modernas que centram-se no oferecimento de prazer, prosperidade e saúde.

[17] – Esta expressão faz referência a um tipo de pregação que enfatiza o legalismo.

Wemerson Marinho é membro da Igreja Presbiteriana do Cariru Ipatinga, Bacharelando em Teologia e diretor da Revista de Estudos Renascer.

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