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Urias, o incircunciso fiel

Henrique Araujo

O texto lido apresenta a história do triângulo amoroso formado por Davi, Bate-Seba e Urias.

Após assumir o reinado da parte sul de Israel, encontrando uma fragmentação política confederada, Davi unifica Israel, toma Jerusalém e a transforma em capital, reconduz a arca do Senhor, derrota diversas nações, expande as fronteiras, estrutura politicamente o país, e planeja construir o templo.

Rei bem-sucedido, governante carismático, ícone político-religioso, compositor de, ao menos 73 salmos, aos 48 anos. Após contemplar Bate-Seba pela janela em um tempo que era para estar na guerra (2Sm 11.1), Davi adultera com a mulher de um de seus tenentes, Urias, o qual morre por plano premeditado. Davi é o mandante do homicídio. Descansar era lícito a Davi, porém, descansar em um momento errado é preguiça ou omissão, sendo assim, pecado. Como um abismo chama outro abismo... (Sl 42.7).

Dependendo da motivação do agente, ou do meio empregado, o delito se torna qualificado, com maior pena, pela conduta ser mais reprovável. É uma forma de homicídio agravado. Os elementos que qualificam este homicídio são:

Cometer o crime mediante paga ou promessa de recompensa, mesmo que não seja real ou financeira;

Cometer o crime por motivo torpe (repugnante, baixo ou gratuito);

Cometer o crime para assegurar a execução, ocultação, impunidade ou vantagem de outro crime (homicídio por conexão);

Davi cometeu um homicídio triplamente qualificado, que merecia pena de doze a trinta anos de prisão. No caso de Davi, as consequências foram doze anos de intrigas e crimes dentro de sua própria casa.

Nesta história, a personagem injustiçada é o fiel Urias. Urias significa “Jeová é minha luz”. Era heteu, ou seja, estrangeiro, pertencente a um império que em tempos idos dominou a vastíssima região Síria, sendo fragmentado no século XII a.C.

Urias, a despeito da traição davídica e da infidelidade conjugal de sua esposa, mantém-se firme em sua postura e fiel até a morte. Sua declaração de fé (2Sm 11.11) ecoa na galeria das grandes declarações de fé, como de Ananias, Misael e Azarias (Dn 3.17-18) e Rute (Rt 1.16-17). Urias só fala uma vez na Bíblia e, quando fala, declara sua fidelidade. Tão diferente de outras pessoas que falam apenas uma vez na Bíblia: a mulher de Jó (Jó 2.9), a mulher de Pilatos (Mt 27.19) só falam uma vez e sua fala é de mesquinhez e blasfêmia.

Urias foi fiel a si mesmo (a seus princípios), ao seu trabalho (Davi era seu chefe), ao seu amigo (Davi era seu amigo), a seu casamento (Bate-Seba) e a Deus. Urias era um homem fiel.

Após adulterar e receber a notícia da gravidez de Bate-Seba, sordidamente, Davi tenta promover a possibilidade da gestação de Bate-Seba ser oriunda de Urias, remetendo-o de volta à sua casa após trazê-lo da guerra. Urias prefere correr perigo de morrer a quebrar seus princípios de fidelidade aos amigos de guerra. Seus princípios eram mais forte do que as ordens do rei.

Sem saber, Urias torna-se portador de sua pena de morte (2Sm 10.14), evidenciando requintes de crueldade desesperada de Davi. Urias poderia pensar na importância de sua missão em levar a missiva e a confiança de Davi nele, a ponto de retirá-lo da guerra para esta ação. Davi foi o Judas de Urias. Davi, homem segundo o coração de Deus... Como isto é possível? “Há um leão dentro de cada um de nós e libertá-lo é apenas uma questão de oportunidade”. Davi comete três pecados (2Sm 12.9): adultera, assassina Urias, e o faz por mãos de gentios. A transformação davídica ocorre quando ele despreza a palavra (2Sm 12.9).

Urias é morto. Davi traz Bate-Seba ao palácio (2Sm 11.27). Natã é enviado por Deus para repreendê-lo. O filho que nasce morre. Bate-Seba fica novamente grávida. Deus lhe dá Salomão. Após mais de dois anos, a guerra contra os amonitas termina. Joabe e os valentes voltam. Veem Bate-Seba no palácio: tudo explicado, agora. Na lista de valentes, Urias é o último (2Sm 23.39). Urias é o apêndice da memória davídica sobre o que a falta de vigilância é capaz de fazer. Urias foi exemplo de fidelidade.

Fidelidade é a expressão concreta da crença na idoneidade de outrem. A fidelidade parte da crença, a lealdade parte da amizade. Urias era fiel e leal. A partir da declaração de fé e atitudes de Urias, lições de como ser fiel podem ser exauridas.

Seja fiel crendo na coisa certa. O que movia Urias, em primeira instância, era sua certeza de estar tomando as atitudes certas aos olhos do Senhor. Há pessoas que estão sinceramente erradas: participantes da procissão do Ciro de Nazaré, autoflagelantes nas cerimônias pascais filipinas, romeiros idólatras para Aparecida do Norte. O que auxiliará a acreditar na coisa certa é a sabedoria advinda pela profunda reflexão nas Escrituras, aplicada à vida.

Aqueles que são chamados “fiéis” e seguem a um líder a despeito de sua insensatez, o fazem de forma irracional. Isto não é fidelidade, é lealdade e teimosia. Lealdade tem por princípio a amizade e não as Escrituras. Enquanto a firmeza é a capacidade de manter sua decisão quando coerente e necessária, a teimosia é a manutenção da decisão mesmo quando incoerente; quando desnecessária torna-se insensatez.

Seja fiel fundamentando-se em princípios revelados nas Escrituras que dão sentido à vida. Urias tinha princípios tão arraigados que preferia sofrer a possibilidade da morte do que abrir mão de princípios na vida. “Destruídos os fundamentos que poderá fazer o justo” (Sl 11.3)? Estes princípios não eram autopropostos por ele mesmo, mas revelados por Deus. Estes limites foram propostos para a vida (Dt 30.16). Lembrando Dostoiévsky: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. O status quo anárquico globalizado é fruto da indiferença à lei divina. A falta de prazer em guardar a lei conduz à depressão (Sl 1.2; Ne 8.10). Quando me alegro na obediência à Palavra, Deus se alegra e me alegra em uma retroalimentação contínua.

Seja fiel crescendo em vigilância. Oque derruba um cristão é a falta de vigilância. Fidelidade sem vigilância é maromba sem alongamento: uma hora ou outra terá hérnia de disco. Fidelidade sem vigilância é dirigir certinho sem trocar correia dentada, óleo e freios. Uma hora o carro vai parar. Davi era fiel, mas não vigiou. Urias era fiel e vigiou em todo o tempo.

A fidelidade de Urias não era cega. Não era insensata ou irracional. Ela via. Ela discernia. Discernia que a ordem de Davi era incoerente e, mesmo diante da possibilidade de morrer por desobedecer à insensatez do mandato davídico, manteve-se fiel à coerência.

Davi viveu. Urias morreu. Urias morreu para a vida. Davi viveu morrendo. Morreu um pouco quando Amnon estupra Tamar (2Sm 13.14). Morreu mais um pouco quando Absalão matou Amnon (2Sm 13.29). Morreu mais um pouco quando Absalão o traiu (2Sm 15.10) e Aitofel se juntou à rebelião (2Sm 15.12). Morreu mais ainda quando Joabe matou Absalão (2Sm 18.15). Tudo isso por um minuto de prazer. A infidelidade não vale a pena. Ouvir é bom. Entender é melhor. Praticar é fundamental. A fidelidade gera vida na vida e conduz à vida. A infidelidade mata antes da morte chegar. E a pior morte que se morre é a morre que se morre antes de se ter morrido. É quere dormir para se encontrar um sonho porque o acordar é viver em um pesadelo. “Sê fiel até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2.10).

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